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Palavra da Curadora
Estamos próximos do início do reporte obrigatório de sustentabilidade nos moldes do International Sustainability Standards Board (ISSB) pelas companhias abertas brasileiras. O diagnóstico feito pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), na sua Nota Técnica de novembro de 2025, expôs um mercado em transição. De um lado, as poucas grandes empresas puxam a fila da adequação climática. De outro, uma base expressiva seguia estagnada na etapa de planejamento e com sérios problemas para calcular o Escopo 3 de Gases de Efeito Estufa (GEE).
Boa leitura!
CVM e a RCVM 193 – diagnóstico da implementação ESG no Brasil
A pesquisa conduzida pela CVM, em abril de 2025, objetivou diagnosticar o nível de preparo do mercado de capitais brasileiro para as exigências da Resolução CVM 193, como parte de um movimento, ancorado nos padrões globais IFRS S1 e S2 (CBPS 01 e 02).
Para subsidiar essa transição, a CVM conduziu uma pesquisa abrangente, entre 2 e 25 de abril de 2025, ouvindo 291 respondentes, incluindo companhias abertas, consultorias e auditores. O propósito técnico era claro: eliminar a assimetria de informações e garantir que o Brasil mantenha sua interoperabilidade com os principais mercados mundiais. Contudo, os dados revelam que o nível de maturidade atual das empresas dita uma urgência crítica para as próximas etapas de implementação.
A distância entre o conhecimento e a prática: diagnóstico de maturidade
- O “implementation gap” enquanto 63% das grandes empresas afirmam possuir conhecimento “alto” das normas, os dados de execução são modestos: 45% das companhias ainda estão apenas na fase de planejamento, e apenas 25,7% iniciaram a execução, majoritariamente em estágios preliminares.
- Contraste por porte: o grupo de “porte corporativo” lidera em maturidade, concentrando 63% das declarações de conhecimento elevado. Isso evidencia que a robustez financeira é, hoje, o principal facilitador da resposta regulatória.
- Evolução da governança: aproximadamente 49% das empresas já trabalham no desenvolvimento de estruturas internas e definição de responsabilidades. Entretanto, governança sem execução técnica é apenas burocracia; o progresso real exige a transição para a camada operacional.
Essa desconexão entre o preparo declarado e a prática sugere que as empresas podem estar subestimando a complexidade técnica que reside no próximo grande gargalo: a gestão de dados.
Gargalos de execução e o déficit de talentos: riscos estratégicos

Para a liderança, o custo da implementação deve ser interpretado sob a ótica da gestão de riscos. A falha na entrega de dados fidedignos em 2026 não gerará apenas multas, mas um risco severo de imagem e perda de atratividade para fundos institucionais.
Os obstáculos identificados são estruturais e exigem atenção imediata:
Vulnerabilidade no escopo 3: 73% das empresas enfrentam dificuldades em engajar sua cadeia de valor (especialmente PMES). Este não é apenas um problema de reporte, mas de resiliência da cadeia de suprimentos, visto que para quase metade dos respondentes (45%), o escopo 3 representa mais de 50% de sua pegada total.
O déficit de talentos: um dado alarmante para o planejamento estratégico: 76% das consultorias relatam carência de profissionais qualificados para suportar essa transição. A escassez de mão de obra técnica torna a capacitação interna uma necessidade de sobrevivência, não um luxo.
Desafios práticos: a aplicabilidade das métricas setoriais SASB é vista como um desafio de implementação por 36,48% das empresas.
75% citou os prazos curtos para implementação
66% citou a ausência de benchmarks setoriais
65% citou os custos elevados de Implementação
Superar esses pontos exige que a sustentabilidade saia do silo de ESG e se integre definitivamente à estratégia financeira e de riscos operacionais.
A camada de valor: fortalecimento reputacional e gestão de riscos
Enxergar a RCVM 193 como um centro de custo é uma visão limitada. Quando conectada aos relatórios financeiros, a norma torna-se uma ferramenta de gestão estratégica que gera benefícios tangíveis:
Transparência e governança: para 70% das empresas, a maior transparência é o benefício principal, reduzindo o custo de capital ao mitigar incertezas para o investidor.
Gestão de riscos climáticos: 67% dos respondentes já utilizam a norma para identificar oportunidades de negócio e riscos operacionais que eram invisíveis em modelos de gestão tradicionais.
Diferenciação competitiva: a adoção antecipada sinaliza ao mercado global que a companhia possui maturidade de gestão superior, servindo como um selo de qualidade institucional.
Benchmark internacional: o Brasil na rota de alta pressão
A análise de 12 jurisdições globais confirma que o Brasil é parte de um movimento sistêmico, mas com nuances regionais importantes.
- O contexto LATAM (“all at once”): diferente do Reino Unido ou Canadá, que ainda estão em fases de consulta técnica, Brasil, México e Chile optaram por uma abordagem não escalonada. Todas as companhias abertas são desafiadas simultaneamente, o que coloca a região em uma “faixa de alta pressão” para conformidade.
- Interoperabilidade e CSRD: O alinhamento com o padrão ISSB busca paridade com o padrão europeu CSRD, hoje considerado o benchmark global de interoperabilidade.
- Asseguração como responsabilidade jurídica: Nigéria, Turquia e Austrália já lideram a obrigatoriedade de asseguração. No Brasil, a transição para a “Limited Assurance” (Asseguração Limitada) a partir de 2026 transforma o reporte em uma responsabilidade de auditoria, elevando o rigor jurídico sobre as informações divulgadas.
Diretrizes para ação: o roteiro para o ano fiscal de 2026

Aproveitamento da Fase Voluntária (2025): 2025 é o último ano para “falhar com segurança”. Iniciar o reporte agora permite ajustar sistemas e processos de coleta sem o risco jurídico da asseguração obrigatória, que tornará qualquer erro de dado um passivo auditável em 2026.
Foco em capacitação técnica e alocação de recursos: dado o déficit de 76% de profissionais qualificados no mercado, as empresas devem investir no “knowledge hub” do ISSB e em programas internos de treinamento para reduzir a dependência de consultorias externas escassas.
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A Bridge3 oferece cursos abertos e in-company, além da plataforma de Diagnóstico de Gaps e roadmap de implementação, todos cuidadosamente criados para instrumentalizar os profissionais das companhias a implementar as normas ISSB/CBPS.
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Engajamento da alta administração: em empresas de grande porte, 74% das lideranças já supervisionam riscos climáticos. este engajamento deve ser traduzido em orçamento para sistemas de informação confiáveis (prioridade para 52% dos respondentes).
Uso estratégico de dispensas (RCVM 232/2025): companhias de menor porte podem usufruir de dispensas regulatórias para reduzir custos. contudo, o conselho deve avaliar se o silêncio sobre ESG não prejudicará a competitividade frente a pares que optarem pela transparência.
A transição regulatória é um desafio de execução, mas, acima de tudo, uma oportunidade de consolidar uma governança moderna e resiliente aos riscos do século XXI.
Considerações finais
Compreendemos que esse processo de adequação requer preparo e diálogo contínuo. A Bridge3 segue mapeando todos os desdobramentos normativos para transformar obrigações técnicas em processos executáveis pelo seu conselho. O nosso ambiente de formação existe exatamente para qualificar as lideranças diante das pressões da transição climática. Até o nosso próximo encontro!
Lista de Siglas Utilizadas
- CBPS: Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade
- CVM: Comissão de Valores Mobiliários
- GEE: Gases de Efeito Estufa
- GHG: Greenhouse Gas (Protocolo de Gases de Efeito Estufa)
- IFRS: International Financial Reporting Standards
- ISSB: International Sustainability Standards Board
- PMEs: Pequenas e Médias Empresas
- RCVM: Resolução da Comissão de Valores Mobiliários
Referências
BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Nota Técnica: Pesquisa Ampla sobre a Implementação da RCVM 193. Rio de Janeiro: CVM, nov. 2025.
IFRS FOUNDATION. Inaugural Jurisdictional Guide for the adoption or other use of ISSB Standards. Londres: IFRS Foundation, 2023. Disponível em: https://www.ifrs.org/.
