|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Toda empresa que já parou para montar seu relatório de sustentabilidade conhece a tentação: abrir a lista dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), marcar os que “conversam” com o negócio e distribuir os ícones coloridos pelas páginas do documento.
O problema é que essa lógica inverteu a ordem certa das coisas.
Os ODS não são um selo para validar o que a empresa já faz, na realidade, são uma lente para perguntar onde ela pesa mais, para o bem e para o mal, sobre pessoas e sobre o planeta.
Em julho de 2026, a ONU lançou o relatório que mede o andamento da Agenda 2030 e mostrou que menos de 40% das metas globais estão avançando no ritmo esperado.
O mercado brasileiro já sente essa cobrança, e estudos recentes sobre relatórios nacionais mostram companhias mais técnicas na forma, mas ainda inconsistentes na substância, sobretudo quando o assunto é compromisso climático.
Esta edição é sobre esse intervalo entre relatar e comprometer-se: como escolher os ODS que realmente cabem à sua operação, priorizá-los com rigor e trazer essa escolha para o relato de um jeito que resista ao escrutínio de investidores, auditores e da própria sociedade.
Boa leitura!
Os tópicos desta matéria são:
Como priorizar os ODS certos e não errar na hora de contar isso no relatório
De onde vêm os ODS?
O mundo está atrasado com os ODS
Existe um método para escolher os ODS certos, e a maioria das empresas não usa
O que é o SDG Compass e como funcionam as cinco etapas
“Cherry-picking” de ODS: a ciência já tem nome para o problema
Como sua empresa contribui para o cumprimento das metas dos ODS do Brasil
Reflexão ampliada
Encerramento
De onde vêm os ODS?
Antes de priorizar qualquer objetivo, vale reconstituir de onde ele veio, porque boa parte da confusão que empresas cometem ao escolher ODS nasce de tratá-los como uma lista solta, sem entender que eles são herdeiros de um processo de décadas.
A raiz remonta à Rio-92, quando mais de cem chefes de Estado se reuniram no Rio de Janeiro e assinaram a Agenda 21, o primeiro grande roteiro internacional para conciliar crescimento econômico e limites socioambientais. Esse compromisso amadureceu em 2000, com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM): oito metas, com prazo até 2015, voltadas, sobretudo, a países em desenvolvimento, para erradicar a fome extrema, reduzir a mortalidade infantil e ampliar o acesso à educação básica.
Os ODM avançaram em alguns indicadores, mas deixaram lacunas evidentes. Foi para preencher essa lacuna que a ONU voltou ao Rio de Janeiro em junho de 2012, na conferência Rio+20, da qual saiu o documento “O Futuro que Queremos”, a base política que encomendou a construção de uma nova agenda, agora universal, aplicável a todos os países, e não apenas aos mais pobres.
Depois de três anos de negociação multilateral, os 193 Estados-membros da ONU adotaram formalmente, em setembro de 2015, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e suas 169 metas associadas, reunidos no documento “Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável“.
Essa genealogia importa para quem relata: os ODS não foram escritos pensando em relatórios corporativos – foram pensados como pauta de governos, empresas e entidades da sociedade civil – e é justamente por isso que a tradução para a linguagem do negócio exige um processo deliberado de priorização, e não a simples cópia de ícones num PDF.

FONTE: ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: ONU, set. 2015. Disponível em: https://movimentoods.org.br/agenda-2030/. Acesso em: 27 jul. 2026.
Imagem: desenvolvida por Bridge3
O mundo está atrasado com os ODS
O Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (DESA), braço estatístico da ONU, lançou em 7 de julho de 2026 o relatório oficial que acompanha o progresso da Agenda 2030. Apenas 36% das metas avaliáveis dos ODS estão no caminho certo ou avançando de forma moderada; esse número foi divulgado durante o Fórum Político de Alto Nível para o Desenvolvimento Sustentável, em Nova York.
O documento reconhece avanços concretos: o acesso à eletricidade já chega a 92% da população mundial, um terço vindo de fontes renováveis; e o acesso à internet quase dobrou desde 2015, mas é direto ao afirmar que, sem uma aceleração decisiva, a promessa da Agenda 2030 corre o risco real de não se cumprir.
Para quem lidera áreas de sustentabilidade, esse dado funciona como um mapa de calor: as metas mais atrasadas, geralmente ligadas a clima, desigualdade e financiamento, são exatamente nas quais a contribuição do setor privado passa a ser mais cobrada por investidores e reguladores, e nas quais a diferença entre relatar e agir fica mais visível.
FONTE: UNITED NATIONS. The Sustainable Development Goals Report 2026. Nova York: UN DESA, 7 jul. 2026. Disponível em: https://unstats.un.org/sdgs/report/2026/. Acesso em: 27 jul. 2026.
Existe um método para escolher os ODS certos, e a maioria das empresas não usa
A GRI e o Pacto Global da ONU mantêm, há quase uma década, um guia técnico chamado Integrating the SDGs into Corporate Reporting: A Practical Guide,
construído junto com PwC e Shift, para orientar o que os dois organismos
chamam de “priorização principiada” dos ODS.
A lógica é simples de enunciar e difícil de praticar: a empresa deve mapear seus impactos reais, positivos e negativos, diretos e na cadeia de valor, antes de decidir quais objetivos vai destacar no relatório, e não o caminho inverso.

O documento detalha esse processo de priorização como uma etapa que se apoia nos Princípios de Relato da GRI e numa revisão dos riscos às pessoas e ao meio ambiente ligados às operações e à cadeia de valor da empresa, formando a base para identificar quais impactos são, de fato, significativos.
FONTE: GRI; UNITED NATIONS GLOBAL COMPACT. Integrating the SDGs into Corporate Reporting: A Practical Guide. Amsterdã: GRI, [s.d.]. Disponível em: https://www.globalreporting.org/media/0sxj0ewa/gri_ungc_reporting-on-sdgs_practical_guide.pdf. Acesso em: 27 jul. 2026.
O que é o SDG Compass e como funcionam as cinco etapas

O SDG Compass é o guia que traduz os ODS para a linguagem estratégica das empresas. Foi desenvolvido pela Global Reporting Initiative (GRI), pelo Pacto Global da ONU e pelo Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), com apoio da PricewaterhouseCoopers (PwC).
O Brasil, aliás, foi o primeiro país do mundo a lançar uma versão traduzida do guia em língua nativa: a publicação em português foi produzida pela Rede Brasileira do Pacto Global, em parceria com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e a GRI, com apoio do Itaú, e lançada em novembro de 2016, em São Paulo.
O guia organiza o trabalho de priorização em cinco passos sequenciais:
- Entendendo os ODS: familiarizar a empresa com os 17 objetivos, suas metas e sua origem, e reconhecer as responsabilidades de linha de base que já se aplicam a qualquer negócio, como cumprir a legislação e respeitar direitos humanos.
- Definindo prioridades: mapear a cadeia de valor de ponta a ponta para localizar onde os impactos positivos e negativos são mais relevantes, selecionar indicadores e reunir dados que sustentem essa priorização.
- Estabelecendo metas: transformar as prioridades em metas específicas, mensuráveis e com prazo definido, escolhendo entre metas absolutas ou relativas e assumindo publicamente o compromisso.
- Integração: ancorar as metas na estratégia e na governança do negócio, incorporando-as às funções corporativas e a parcerias com fornecedores, pares de setor e outras partes interessadas.
- Relato e comunicação: divulgar o progresso de forma consistente, explicando por que cada ODS foi priorizado, quais impactos foram identificados e como a empresa está gerenciandocada um, de preferência apoiada em padrões reconhecidos, como os da própria GRI.
FONTE: PACTO GLOBAL DA ONU – REDE BRASIL. Brasil é o primeiro país a traduzir o “SDG Compass”. São Paulo: Pacto Global, 2016. Disponível em: https://www.pactoglobal.org.br/noticia/brasil-e-o-primeiro-pais-a-traduzir-o-sdg-compass/. Acesso em: 27 jul. 2026.
FONTE: GRI; PACTO GLOBAL DA ONU; WBCSD. SDG Compass: Diretrizes para Implementação dos ODS na Estratégia dos Negócios. Versão em português. Disponível em: https://www.fiemg.com.br/wp-content/uploads/media/SESI/2019/RESPONSABILIDADESOCIAL/SDG-Compass.pdf. Acesso em: 27 jul. 2026.
“Cherry-picking” de ODS: a ciência já tem nome para o problema
Um estudo acadêmico publicado em 2021 na revista Corporate Social Responsibility and Environmental Management cunhou um termo que vem se espalhando entre pesquisadores de relato corporativo: SDG-washing, o hábito de reembalar iniciativas antigas com a moldura dos ODS sem gerar nenhum esforço adicional.
Os autores descrevem que uma priorização superficial, sem justificativa pública e sem consulta a partes interessadas, tende a ser um sinal de cherry-picking (literalmente, “colher só as cerejas” é a prática de escolher seletivamente os dados, exemplos ou objetivos mais favoráveis, deixando de fora tudo que complica a narrativa ou expõe fragilidades), com empresas concentrando-se nos objetivos mais confortáveis, normalmente os que já estão sendo cumpridos por inércia.
Uma pesquisa publicada em 2026 na revista Sustainable Development aplicou a mesma lógica de análise a políticas de governos asiáticos e chegou a um resultado parecido: a seleção seletiva de metas favoráveis é um padrão recorrente sempre que falta um processo estruturado de priorização, seja em países, seja em empresas.
Para quem prepara um documento como um relatório de sustentabilidade, a lição prática é que a ausência de explicação pública sobre por que aquele ODS específico foi priorizado – e não outro – já é, por si, um indício de fragilidade que investidores mais experientes sabem reconhecer.
FONTE: LIM, Che-hwan; LEE, Dasun; JI, Seongtae; AN, Donghwan. Cherry-Pickers and Followers in SDGs: The Case of Asian Countries. Sustainable Development, 2026, p. 1-15. DOI: https://doi.org/10.1002/sd.70667.
FONTE: HERAS-SAIZARBITORIA, I.; URBIETA, L.; BOIRAL, O. Organizations’ engagement with sustainable development goals: from cherry-picking to SDG-washing? Corporate Social Responsibility and Environmental Management, v. 29, p. 316-328, 2021. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/csr.2202. Acesso em: 27 jul. 2026.
Como sua empresa contribui para o cumprimento das metas dos ODS do Brasil
Os 169 alvos da Agenda 2030 nunca foram pensados para caber igualmente em todos os 193 países signatários; por isso, cada governo passa por um processo de “nacionalização” ou “territorialização”, que adapta as metas globais à realidade e às prioridades locais.
No Brasil, esse processo passa pela Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (CNODS), recriada em 2023, depois de um período de esvaziamento, e hoje formada por 42 representantes de ministérios, 42 da sociedade civil, incluindo setor privado e academia, e 4 de governos estaduais e municipais. É a única comissão do tipo no mundo com essa paridade entre governo e sociedade civil.
Em julho de 2024, depois de seis anos sem apresentar um balanço à ONU, o Brasil retomou a entrega do Relatório Nacional Voluntário (RNV), cruzando o desempenho dos ODS com as metas priorizadas no Plano Plurianual (PPA) 2024-2027.
O retrato que saiu dali foi duro: entre 2016 e 2022, apenas 8,3% das metas nacionais foram plenamente alcançadas, 20,7% evoluíram positivamente, 13,6% retrocederam e 42% sequer puderam ser avaliadas por falta de dado confiável.
Esse último número importa especialmente para quem faz relato corporativo: o tópico cujo país não tem dado, a métrica que a sua empresa produzir internamente pode ser, na prática, a única informação territorializada disponível sobre aquele tema.
A CNODS também já mostrou como a “tradução” de uma agenda global para a realidade local pode ir além dos 17 objetivos originais: em 2023, o governo brasileiro propôs na Assembleia Geral da ONU a criação do ODS 18, sobre igualdade étnico-racial, hoje com câmara temática própria dentro da Comissão.
Isso significa que uma empresa brasileira que já trata esse tema internamente tem, desde então, uma referência nacional formal para ancorar esse relato, algo que não existe no padrão internacional dos ODS.
Na prática, empresas brasileiras se conectam a essa arquitetura de duas formas. A primeira é institucional: CEBDS e a Rede Brasileira do Pacto Global integram oficialmente os espaços de diálogo da CNODS, o que dá ao setor privado assento nas câmaras temáticas, inclusive, na que trata especificamente de territorialização dos ODS.
A segunda é técnica, e é a que mais interessa a quem elabora a materialidade: cruzar os temas prioritários já definidos no PPA 2024-2027 e nos indicadores nacionais acompanhados por IBGE, Ipea e Fiocruz com os próprios temas materiais da empresa. Um tema que já é prioridade explícita de política pública tende a pesar mais no eixo de “influência nas decisões das partes interessadas” da materialidade e é um sinal de relevância que vem de fora da empresa, não de dentro dela.
FONTE: BRASIL. Secretaria-Geral da Presidência da República. Relatório Nacional Voluntário Brasil 2024. Brasília: Secretaria-Geral, jul. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/cnods/RNV_Brasil/portugues. Acesso em: 27 jul. 2026.
FONTE: PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO (PNUD). Membros da Comissão Nacional para os ODS tomam posse em Brasília. [S.l.]: PNUD Brasil, 2024. Disponível em: https://www.undp.org/pt/brazil/news/membros-da-comissao-nacional-para-os-ods-tomam-posse-em-brasilia. Acesso em: 27 jul. 2026.
Reflexão ampliada
Há uma diferença de origem entre os ODS e os padrões de relato que vale a pena recuperar sempre que uma empresa começa esse exercício de priorização. Os 17 objetivos nasceram em 2015 como um pacto entre países, pensado para orientar políticas públicas e cooperação internacional; nunca foram desenhados como uma ferramenta de disclosure corporativo. Por isso, encaixá-los num relatório exige tradução, não apenas rotulagem.
A GRI cumpre esse papel de tradutor há anos, conectando cada meta dos ODS às divulgações padronizadas que já existem nos Standards; mais recentemente, o ISSB e a própria CVM, no Brasil, empurraram o debate para um território mais estreito, ligado também à materialidade financeira.
O relatório de progresso da ONU divulgado em julho de 2026 devolve um dado incômodo para esse debate: com menos de cinco anos até 2030, a distância entre discurso corporativo e resultado mensurável ficou pequena demais para se sustentar só com boas intenções. As empresas que vão se diferenciar na próxima década de relato não serão as que mencionam mais ODS, mas as que conseguirem provar, com indicador e trilha de auditoria, que escolheram menos objetivos e foram fundo neles.
Encerramento
Priorizar ODS com rigor não é um exercício burocrático a mais no calendário do relato; é a diferença entre um relatório que resiste a uma auditoria e um que só resiste a uma leitura rápida. Se esse processo ainda parece difícil dentro da sua empresa, esse é exatamente o tipo de tema que a Bridge3 desenvolve há anos. Nossos cursos e nossas consultorias preparam os profissionais e as empresas para conectar seus temas materiais com as metas específicas dos ODS. Os relatórios publicados com esta integração são excelentes referências de como a empresa realmente contribui com a agenda 2030.
Até a próxima.