Por que matar o mensageiro? O inócuo debate sobre o fim do ESG

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A origem do ESG: muito além da pandemia de 2020

Durante a pandemia, era comum ler a respeito nos diversos veículos de comunicação, nos artigos publicados, nos posts e ouvir nas falas em lives que a criação do termo ESG ou mesmo o seu florescimento era atribuído àquela fase de 2020.

É da mesma época o recall do termo “triple bottom line”, criado por John Elkington, que propunha o equilíbrio entre as Pessoas, o Planeta e o Lucro.

Aqui no Brasil, o único livro dele traduzido e publicado em português, “Canibais com garfo e faca”, trazia originalmente o termo. Em inglês, foi publicado em 1997.

Canibais com garfo e faca. John Elkington. O livro do conceito TRIPLE BOTTOM LINE
Canibais com garfo e faca. John Elkington. O livro do conceito TRIPLE BOTTOM LINE

E foi no começo de 2020, com o lançamento do livro “Green Swans: The Coming Boom In Regenerative Capitalism” (Cisnes verdes: o boom do capitalismo regenerativo), que o padrinho da sustentabilidade iniciou a campanha de recall pelo termo Triple Bottom Line.

E por quê? Ele explica que a ideia era que as empresas aplicassem o conceito dando a mesma importância para cada P. Entretanto, ele testemunhou diversos escândalos ao longo dos anos e descobriu que muitas empresas se dedicaram excessivamente ao Lucro, e fazendo muito pouco pelas pessoas e pelo planeta.

Segundo o novo livro, faltaram 3 R’s na teoria anterior: responsabilidade, regeneração e resiliência.

E, mesmo assim, ainda há empresas usando o nome triple bottom line para nomear negócios, construir narrativas e comunicar que estão comprometidas com a sustentabilidade.

O mesmo tem sido sistematicamente feito com o ESG.

Ele surgiu bem antes da pandemia, em 2004, por uma iniciativa conjunta de diversos agentes do mercado financeiro, inclusive, o Banco do Brasil e a ONU, a qual, na época, era capitaneada por Kofi Anan:

Who Cares Wins The Global Compact
Who Cares Wins Connecting Financial Markets to a Changing World The Global Compact

 

ESG no Mercado Financeiro e Gestão de Riscos

O termo ESG aparece 123 vezes no relatório. Qual foi a intenção e tem sido até hoje?

Integrar os temas significativos ambientais, sociais e de governança ao negócio para que o investidor e os demais atores do mercado financeiro conheçam o que, de fato, pode afetar o negócio, a partir dos impactos, riscos e oportunidades.

E por quê? O próprio mercado financeiro entende o quanto as mudanças climáticas têm afetado os investimentos e o quanto a perda de biodiversidade tem colocado negócios em risco.

Ainda, é enorme o peso reputacional de não monitorar os riscos de trabalho escravo e infantil na cadeia de valor. Isso para falar de alguns poucos exemplos.

Desde então, o ESG caminhou em ondas, ora sendo abafado por crises, como a de 2008, ora voltando à superfície, como durante a pandemia.

E até hoje, são inúmeras as iniciativas para demandar transparência nos negócios, tanto no que se refere a impactos, riscos e oportunidades prioritários quanto à sua materialidade.

Dentre várias outras demandas, podemos destacar uma: como a gestão de curto, médio e longo prazos procura mitigar seus efeitos, regenerar os ecossistemas e/ou se adaptar às mudanças que pressionam as cadeias de fornecimento, a competitividade dos negócios, além da integridade das pessoas.

ESG não é modismo: o custo da inação para as empresas

É importante sempre lembrar, igualmente, o conceito de desenvolvimento sustentável:

“é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprirem suas próprias necessidades”

-Gro Harlem Brundtland

Este papel cabe a todos, mas muito mais às empresas que usam extensivamente os recursos naturais, como água, energia etc. A agenda 2030 da ONU, com os 17 ODS e as 169 metas, são um norte para identificar como cada um pode e deve contribuir.

É provável que este texto soe repetitivo para muitos que atuam mais próximo do tema ou para quem é do mercado financeiro, da sustentabilidade e outras áreas de maior interesse, como compliance e riscos. Entretanto, a ideia foi justamente reforçar que o ESG não é um modismo.

Ao longo dos últimos anos, a pressão sobre as empresas e o mercado financeiro só cresceu. O grande público tem plena consciência dos danos causados pelas organizações ao meio-ambiente, à sociedade e à economia e, do outro lado, o quanto o mundo em crise e o planeta doente têm afetado os negócios.

A boa notícia é que a eventual ressonância do discurso negacionista não tem reverberado. O mercado financeiro continua firme em sua trajetória de pressão às empresas para que incorporem os impactos, riscos e oportunidades. A sociedade em geral tem exigido transparência e rastreabilidade da sustentabilidade, tanto em suas escolhas quanto ao trazer luz aos mal-feitos. Não há como fugir, e não é matando o mensageiro que as questões irão sumir.

Pelo contrário, a inação está se tornando cada vez mais impagável e irreversível.

 

Limites Planetários e o Acordo de Paris

 

Limites Planetários

Planetary boundaries – Stockholm Resilience Centre

 

Diversos padrões e estruturas de relato, assim como regulações governamentais, diretivas do mercado financeiro e iniciativas com base na ciência, têm utilizado, ao longo dos anos, a referência do Acordo de Paris.

Ele estabelece o limite do aumento de temperatura da terra em 1,5 °C até o fim do século. Muitas empresas têm procurado alinhar suas ambições ao chamado Net zero, ou emissões líquidas zero, até 2050. Para tanto, o escopo 3, ou as emissões indiretas, precisam ser mapeadas, e um plano que envolva toda a cadeia de valor do negócio necessita estar claro e desdobrado em metas.

Para o mercado de crédito, há o enorme desafio de mapear as emissões financiadas.

É compreensível, obviamente, que problemas para os quais só há consequências mais graves a longo prazo sejam adiadas na lista de prioridades das gestões das empresas. É natural do ser humano. Afinal, a toda hora surgem enormes obstáculos impostos pela agenda diária e que são agravados pelo contexto local e global, hoje ainda tomado por duas guerras.

Entretanto, ignorá-lo não fará o problema sumir. Negar a sua existência menos ainda. Implicar com uma mera sigla pode soar mais como uma desculpa semântica.

A boa notícia é que há visionárias e visionários ainda habitando este planeta, os quais decidiram, ou lá atrás ou, diariamente, por meio de decisões com um olhar nas consequências futuras, a importância das escolhas de hoje.

Apenas para ilustrar, tivemos o case da Interface, fabricante de carpetes americana,

Gestão da Qualidade sem burocracia: Qualyteam Software (YouTube Link)

Ray Anderson (in memoriam) estabeleceu uma visão bastante ambiciosa lá na década de 1990, quando entendeu que um dia o que ele fazia poderia ser considerado crime (gerar resíduos e emissões): “a jornada será de 1.000 milhas, mas vamos iniciar com um passo de cada vez”.

Com isso, ele inspirou a todos e, por fim, atingiram a meta um ano antes do previsto. Ele se tornou referência em sustentabilidade para diversos outros negócios. Foi um visionário.

Não por acaso as Normas IFRS S1 e S2, incorporadas na regulação brasileira por meio da CVM 193/23, requer que a organização descreva sua estratégia climática, primeiramente, mas em breve para todos os riscos e oportunidades financeiros relacionados à sustentabilidade.

Como você e sua empresa têm se preparado?