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Palavra da curadoria
Se você trabalha com sustentabilidade corporativa, o termo “materialidade” certamente faz parte do seu vocabulário cotidiano. E saiba que existe uma diferença que separa empresas quando se refere à aplicação desse conceito, como a dupla materialidade.
Algumas apenas tratam o exercício como um projeto de coleta de dados com prazo de entrega; outras a reconhecem como um processo de conhecimento que muda, de fato, onde o dinheiro e a atenção da liderança vão parar no ano seguinte e nos próximos ciclos de crescimento.
Esta edição segue um caminho didático: primeiro reconstruímos de onde vem o termo, depois explicamos o que cada eixo da dupla materialidade realmente mede, aprofundamos na metodologia e, por fim, mostramos por que empresas maduras já não usam esse exercício só para preencher relatório e definir os indicadores a serem reportados, mas usam de fato, para decidir onde investir, o que priorizar, estabelecer metas e indicadores e traçar estratégias coerentes com a cadeia de valor da organização.
Boa leitura!
De onde veio o termo Dupla Materialidade?

A expressão “double materiality” apareceu pela primeira vez em texto oficial em 20 de junho de 2019, quando a Comissão Europeia publicou suas Diretrizes sobre Relato Não-Financeiro com um suplemento específico para informação climática.
O documento separou, de forma explícita, duas perguntas que antes viviam misturadas na Diretiva de Relato Não-Financeiro de 2014: o que afeta o desenvolvimento, o desempenho e a posição da empresa, e o que a atividade da empresa afeta no mundo.
Essa clarificação, mesmo não sendo vinculante, foi incorporada pela European Securities and Markets Authority em suas prioridades de fiscalização já em 2020, um ano antes de qualquer lei tornar o conceito obrigatório.
Entender que o termo nasceu como esclarecimento técnico, não como imposição regulatória, ajuda a explicar por que ele se espalhou tão rápido. Quando a Diretiva de Relato de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) foi adotada em dezembro de 2022, ela não inventou um conceito novo, apenas deu força de lei a uma prática que o mercado já vinha adotando havia três anos.
COMISSÃO EUROPEIA. Guidelines on Non-Financial Reporting: Supplement on Reporting Climate-Related Information (2019/C 209/01). Bruxelas: Jornal Oficial da União Europeia, 20 jun. 2019. Disponível em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/PDF/?uri=CELEX:52019XC0620(01). Acesso em: 2 jul. 2026.
As duas perguntas que todo processo de materialidade precisa responder
A lógica da dupla materialidade pode ser compreendida como uma operação de conjuntos, não de interseção: um tema entra na matriz se for material sob a ótica financeira, sob a ótica de impacto, ou sob as duas ao mesmo tempo, não é preciso que necessariamente as duas coincidam.
A materialidade financeira, também chamada de perspectiva “outside-in“, pergunta se um tema de sustentabilidade gera efeito sobre as perspectivas financeiras da empresa, como os fluxos de caixa futuros e, portanto, sobre o valor da empresa no curto, médio e longo prazo, é a linguagem que fala diretamente com investidores e credores.
Já a materialidade de impacto, ou perspectiva “inside-out“, pergunta que efeitos, reais ou potenciais, a operação da empresa e sua cadeia de valor produzem sobre pessoas e meio ambiente, independentemente de esse efeito retornar ou não ao balanço financeiro.

Tratar as duas óticas como concorrentes é um dos erros mais comuns quando se aborda o assunto da materialidade. Aferir peso desigual a uma das duas produz matrizes distorcidas, com riscos financeiros subavaliados e oportunidades reais deixadas de fora.
PWC PORTUGAL. Dupla Materialidade: uma nova perspetiva sobre a identificação dos temas materiais para a sua organização. Lisboa: PwC, 2022. Disponível em: https://www.pwc.pt/pt/sustentabilidade/docs/pwc-sustentabilidade-dupla-materialidade-metodologia.pdf. Acesso em: 2 jul. 2026.
DELOITTE. Heads Up — Unpacking the Double Materiality Assessment Under the E.U. Corporate Sustainability Reporting Directive. Nova York: DART, 27 jun. 2024. Disponível em: https://dart.deloitte.com/USDART/home/publications/deloitte/heads-up/2024/csrd-esrs-double-materiality-assessment. Acesso em: 2 jul. 2026.
O processo e os gaps
O processo pode variar em alguns nuances, a depender da metodologia aplicada, porém, algumas etapas são centrais para a dupla materialidade: identificação dos grupos de stakeholders a consultar, levantamento de temas potencialmente relevantes via pesquisa e benchmarking setorial, priorização desses temas sob a ótica de impacto, priorização sob a ótica financeira, construção da matriz ou um infográfico que consolide as duas leituras, aprovação formal pela alta gestão e, por fim, um relatório de análise que documenta todo o caminho percorrido.
Em um estudo recente, PwC nos Estados Unidos, documentou os erros mais recorrentes ao revisar avaliações conduzidas sob a CSRD: produzir a matriz rapidamente sem documentar critérios e fontes, analisar temas apenas no nível macro sem descer a subtemas e pontos da cadeia de valor, depender de uma única ferramenta de avaliação quando scoring, entrevistas, workshops e benchmarking deveriam se combinar, e conduzir o exercício de forma isolada em uma única área, sem engajar toda a organização.
Cada um desses erros vira um ponto de vulnerabilidade no momento da asseguração por auditor independente, exigência que, tanto na ESRS europeia quanto no arcabouço técnico do CBPS no Brasil, já pressupõe nível de rigor equivalente ao das demonstrações financeiras.
PWC US. 10 Pitfalls Companies Should Avoid When Conducting a CSRD-Aligned Double Materiality Assessment. Nova York: PwC, ago. 2025. Disponível em: https://www.pwc.com/us/en/services/esg/library/csrd-double-materiality.html. Acesso em: 2 jul. 2026.
Dupla materialidade além do relato
O erro mais caro que uma empresa comete com a dupla materialidade é tratá-la como produto final, um documento que nasce, é publicado e aposentado até o próximo ciclo. Na prática, o dado bruto de uma matriz bem construída é insumo de decisão em pelo menos quatro frentes que estão muito além do relato.
PRIMEIRA FRENTE
A primeira é gestão de riscos e oportunidades: uma matriz que cruza dependência de recursos naturais com exposição de cadeia de suprimentos a eventos climáticos revela vulnerabilidades operacionais antes que elas virem prejuízo contabilizado, esse cruzamento como o ponto em que impactos, riscos e oportunidades deixam de ser categorias separadas e passam a se retroalimentar dentro do mesmo processo de avaliação.
SEGUNDA FRENTE
A segunda frente é alocação de capital. Quando a matriz aponta que um tema é simultaneamente material sob a ótica financeira e sob a ótica de impacto, isso costuma significar que investir em mitigação ou adaptação naquele ponto específico produz retorno duplo, reduz exposição a risco regulatório e, ao mesmo tempo, evita o dano que gerou o risco em primeiro lugar.
É esse raciocínio que orienta comitês de investimento a priorizar projetos de descarbonização ou eficiência hídrica não como gasto de conformidade, mas como alocação de capital com retorno mensurável no médio prazo.
TERCEIRA FRENTE
Outra frente é inovação e desenvolvimento de produto. Temas que aparecem como materiais no aspecto de impacto, geração de resíduos, intensidade de uso de água, dependência de matéria-prima virgem, funcionam como mapa de onde a demanda por soluções circulares provavelmente vai crescer primeiro, permitindo que áreas de P&D antecipem o redesenho de produtos antes que a pressão regulatória ou de mercado se torne inevitável.
QUARTA FRENTE
Há ainda uma frente, talvez a mais visível de fora para dentro da empresa: a materialidade como origem de compromisso público e de estrutura de governança. Uma companhia pode, a partir da dupla materialidade, definir de metas e compromissos públicos em cada um dos temas materiais.
A materialidade também tem potencial para redesenhar o organograma. Por exemplo, a partir da priorização da biodiversidade, a Companhia pode reconhecer a necessidade de desenvolver um programa dedicado que centraliza metas, compromissos e ações nessa frente e, com isso, criar uma estrutura de governança que não existia antes de o tema ganhar peso suficiente na avaliação de materialidade para justificar área, comitê e/ou orçamento próprios.

Relatório de Sustentabilidade, Usina Petribu, 2024-2025

Relatório de Sustentabilidade, Norte Energia, 2025
É esse mecanismo que explica por que áreas como direitos humanos, diversidade, equidade e inclusão e estratégia climática, hoje comuns em empresas de setores expostos a riscos nesses temas, frequentemente nascem como resposta direta a um tema que a materialidade apontou como crítico, e não como iniciativa espontânea de um departamento já existente.
O paralelo mais útil aqui é com a própria disciplina de gestão de riscos corporativos: nenhuma empresa madura trata seu mapa de riscos como documento estático, revisado uma vez ao ano e arquivado.
A dupla materialidade, quando usada corretamente, opera com a mesma lógica, um instrumento vivo, revisitado sempre que o contexto de negócio, regulatório ou de mercado muda, e não apenas quando o calendário de relato exige.
Considerações finais
A materialidade bem-feita não termina quando o relatório é publicado; pelo contrário, é aí que o trabalho de verdade começa traçando estratégia com metas, indicadores, compromissos, estabelecendo uma gestão de riscos ativa nos temas.
Se esta edição te deixou com vontade de revisar como sua empresa constrói esse processo, ou de levar a discussão de metodologia para dentro do comitê de sustentabilidade, é exatamente para isso que a Bridge3 existe: formação contínua para quem decide não tratar esse processo como formulário.
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Esperamos que este conteúdo traga insights valiosos para impulsionar suas decisões estratégicas e acelerar a sua carreira.
Até a próxima!