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Palavra da Curadora
O recente alinhamento entre o International Sustainability Standards Board (ISSB) e as Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) reflete o amadurecimento das expectativas do mercado. Investidores demandam informações precisas sobre os impactos do clima e natureza, e a convergência dessas instituições reduz a fragmentação e traz clareza aos relatórios das empresas. Este movimento reforça a necessidade de tratar o capital natural com o mesmo rigor metodológico exigido para as métricas climáticas. As empresas que já incorporam a biodiversidade em suas estratégias de risco ganham vantagem na adaptação a essa nova arquitetura financeira global.
Boa leitura!
ISSB e TNFD na promoção de divulgações relacionadas à natureza
O título acima é uma tradução da notícia oficial no site da Fundação IFRS, publicada em 07 de novembro de 2025. Essa notícia trata da expansão das normas globais para incluir exigências de transparência sobre riscos e oportunidades relacionados à natureza. Para evitar duplicidade de esforços, a TNFD encerrará seus trabalhos técnicos atuais e apoiará a integração de sua estrutura às normas oficiais. Essa cooperação visa a criar um padrão único de divulgação que atenda às demandas de investidores por dados comparáveis sobre biodiversidade e ecossistemas.

O ISSB utilizará a metodologia da TNFD para estabelecer novas diretrizes que complementem os requisitos de sustentabilidade e clima já existentes. Espera-se que uma proposta formal de regulamentação seja apresentada até o final de 2026 para consulta pública. Enquanto isso, as organizações são incentivadas a adotar voluntariamente as recomendações vigentes como preparação para o futuro cenário regulatório.
Esse cenário se estabelece dessa forma para atender a uma necessidade expressa de investidores por informações claras e comparáveis sobre os impactos ambientais nos negócios. O ecossistema financeiro precisava reduzir a complexidade gerada por diversas métricas sobrepostas. A consolidação constrói uma linha de base global única, estruturada em práticas já testadas e validadas pelo mercado.
O ISSB definirá sua abordagem para a elaboração de normas nos próximos meses, com opções que incluem uma combinação de orientações de aplicação ou alterações às normas existentes do ISSB, orientações baseadas no setor, fontes adicionais de orientação ou uma nova norma. Este trabalho estará sujeito a uma consulta pública, em conformidade com o devido processo da Fundação IFRS. Após a definição das normas, o ISSB desenvolverá todos os materiais educativos necessários para explicar como aplicar os requisitos das Normas ISSB no contexto do fornecimento de informações específicas sobre a natureza do material.
Como se desenvolve
Na vertente da natureza, o ISSB desenvolverá regras incrementais utilizando o modelo metodológico da TNFD, englobando suas recomendações, métricas e a abordagem LEAP (Localizar, Avaliar, Mensurar e Preparar). A minuta oficial do novo documento sobre biodiversidade tem publicação prevista para outubro de 2026, durante a convenção COP17.
Entendendo a Abordagem LEAP
A abordagem LEAP é uma metodologia prática e estruturada, desenvolvida pela TNFD para orientar as empresas na identificação e na gestão de questões ligadas à natureza. O ISSB confirmou que utilizará este modelo como base metodológica para as suas futuras exigências de divulgação ambiental.
O roteiro atua de forma integrada e é composto por quatro etapas de diagnóstico:
- Localizar (Locate): mapear onde as operações da empresa e a sua cadeia de valor interagem com os ecossistemas.
- Avaliar (Evaluate): identificar as dependências do negócio em relação aos recursos naturais e os impactos gerados no meio ambiente.
- Analisar (Assess): mensurar como essas interações físicas se traduzem em riscos materiais e em oportunidades financeiras.
- Preparar (Prepare): estruturar as respostas estratégicas corporativas e organizar a base de dados para o relato oficial ao mercado.
A adoção desse passo a passo ajuda as empresas a processar a complexidade dos dados de biodiversidade e facilita a preparação para as normativas definitivas da Fundação IFRS.
Para consultar as diretrizes técnicas completas, acesse o documento oficial da TNFD: https://tnfd.global/publication/additional-guidance-on-assessment-of-nature-related-issues-the-leap-approach/
Áreas de foco do TNFD
O site da TNFD possui um repositório de documentos relevantes que podem ser usados por empresas, instituições financeiras e outras partes interessadas que buscam alinhar suas operações com a preservação e o uso sustentável do capital natural. O framework do TNFD foi desenhado para ajudar as organizações a reportar e agir sobre riscos e oportunidades relacionados à natureza, promovendo uma mudança nos fluxos financeiros globais em direção a resultados positivos para a natureza.
Com base nas publicações em destaque, as principais áreas de foco do TNFD incluem:
- Recomendações Centrais e Governança
A publicação principal, “Recommendations of the Taskforce on Nature-related Financial Disclosures”, estabelece os fundamentos do framework. Ela fornece as diretrizes estruturais para que as empresas divulguem como a natureza impacta seus negócios e como seus negócios impactam a natureza, seguindo quatro pilares: Governança, Estratégia, Gestão de Risco e Métricas/Metas.
- Engajamento e Responsabilidade Social
O TNFD reconhece que a proteção da natureza é indissociável dos direitos humanos. O guia “Guidance on engagement with Indigenous Peoples, Local Communities and affected stakeholders” destaca a importância de incluir povos indígenas e comunidades locais no processo de tomada de decisão, respeitando seus conhecimentos ancestrais e garantindo que o reporte financeiro considere os impactos sociais diretos.
- Implementação Prática e Transição
Para facilitar a jornada de conformidade, documentos como o “Getting started with adoption of the TNFD Recommendations“ oferecem um roteiro prático para organizações que estão iniciando sua jornada de transparência ambiental, reduzindo a complexidade da transição de modelos de negócios tradicionais para modelos sustentáveis.
- Métricas Setoriais e Cadeias de Valor
Diferentes setores da economia interagem com a natureza de formas distintas. Por isso, o TNFD disponibiliza documentos de discussão sobre métricas específicas por setor e abordagens para cadeias de valor. Isso permite que uma empresa, além de olhar para suas operações internas, também compreenda os riscos ocultos em seus fornecedores e clientes.
- Foco em Biomas e Ecossistemas
Por meio de publicações como o “Guidance on biomes”, a força-tarefa oferece orientações científicas detalhadas sobre diferentes ecossistemas. Isso ajuda as empresas a entenderem as particularidades geográficas dos locais onde operam, seja em florestas tropicais, oceanos ou zonas áridas.
Considerações finais
A padronização aqui comentada direciona as empresas a tratarem a conservação de clima e natureza como fonte concreta de risco, valor e resiliência na alocação de capital. A recomendação atual de Emmanuel Faber, presidente do ISSB, orienta que as companhias apliquem os parâmetros da TNFD desde já nas suas operações. A adoção antecipada facilita a adequação aos requisitos gerais de sustentabilidade do IFRS S1 e garante a conformidade para quando as novas regras incrementais entrarem em vigor.
Neste contexto de rápida evolução regulatória e metodológica, vale destacar um movimento complementar: você sabia que a GRI lançou a sua nova norma oficial de Biodiversidade (GRI 101)?
Enquanto a integração do ISSB com a TNFD olha primordialmente para o impacto financeiro que a degradação ambiental traz para as empresas (materialidade financeira), o padrão da GRI foca em como as operações de uma companhia impactam os ecossistemas e as comunidades locais (materialidade de impacto).
Incorporar as métricas da GRI para a biodiversidade é um passo de muita importância para as organizações que buscam mitigar os seus efeitos diretos no capital natural, mapeando desde o uso da terra até as consequências ao longo da sua cadeia de suprimentos. Unir as visões da TNFD/ISSB com a da GRI permite que a empresa adote a chamada “dupla materialidade”, prestando contas de forma completa tanto para os investidores preocupados com os riscos financeiros quanto para a sociedade atenta à preservação dos recursos do planeta.
Dica de Aprofundamento: Podcast do ISSB
https://www.ifrs.org/news-and-events/news/2026/04/april-2026-issb-update-and-podcast-now-available/
Para complementar o entendimento sobre a evolução das diretrizes globais de sustentabilidade, recomendamos o episódio focado nas atualizações de abril de 2026 do podcast oficial do ISSB. Apresentado pelo presidente da organização, Emmanuel Faber, e pela vice-presidente, Sue Lloyd, o programa detalha especificamente os próximos passos propostos para as exigências de divulgação relacionadas à natureza.
O episódio oferece uma visão estratégica ao abordar as recentes reuniões da liderança com bancos multilaterais de desenvolvimento, o Conselho Consultivo do IFRS e os representantes do setor de seguros. Adicionalmente, os executivos compartilham perspectivas sobre o progresso do Grupo de Implementação de Transição dedicado às normas IFRS S1 e IFRS S2, bem como as consultas públicas voltadas a alterações em três Padrões SASB.
Este material é um excelente recurso para profissionais que buscam acompanhar os bastidores das decisões regulatórias. O áudio está disponível para acesso na página oficial da Fundação IFRS, no Spotify, no Apple Podcasts e no canal oficial da instituição no YouTube.
Confira: https://www.ifrs.org/news-and-events/news/2026/04/april-2026-issb-update-and-podcast-now-available/
Referências
IFRS FOUNDATION. ISSB welcomes TNFD’s support as it advances nature-related disclosures. Londres: IFRS, 7 nov. 2025. TASKFORCE ON NATURE-RELATED FINANCIAL DISCLOSURES (TNFD). TNFD welcomes ISSB decision on nature-related standard setting drawing on TNFD framework. [S. l.: s. n.], [2025?].